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É junho

Mesmo que o poeta tenha me pedido pra deixar Junho para São João, eu não posso deixar de lado minhas crises existenciais. Elas vêem, não importa a data. Há na minha mente um silêncio sepulcral. Minha visão torrencial transforma minha existência em pequenos fragmentos de quem desejei ser, parece que meus lábios não desejam o delicioso gosto de um milho verde. Parece que depois de 25 anos ele só almeja um café amargo. Parece que tudo invade meu corpo como demônios que se alojam sem pedir licença. Muitos viajantes pararam nesta estalagem, porém nenhum quis transformá-la em lar. É difícil fazer morada em um corpo apodrecido. Não há nada nem ninguém que não tenha se aquecido em meu templo moribundo desejando tirar a pouca doçura que tinha. Todos se aproximam, todos dizem amar este lar, mas poucos o vêem assim, não passo de um ser intrigante cuja existência complexa desperta a curiosidade de mentes depravadas e cruéis. Tu és mais um ser que se aproximasse para me observar, medir, pesar, jul…
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Devaneios sobre o amor

Ninguém vem ao mundo pra amar duas vezes.
Sou uma mulher moderna, com concepções progressistas, mas que não avançou muito no discurso amoroso. Eu não sei bem o que dizer sobre o amor, como ele é, como acontece. Mas é fato que eu não acredito que esse burburinho sobre afetos entre dois seres pode ser chamado de amor.  Aprendi com Jane Austen que ele ultrapassa barreiras, está para além das convenções. Shakespeare me mostrou que ele supera a própria vida. Com ela aprendi que o amor é construção. Com meus erros aprendi que ele não é suficiente se algo te faz perder a razão. Ninguém ama duas vezes, ninguém acredite nessa loucura. É demasiado romântico pensar, mas o que é que tem?  As pessoas perderam o romance, acham piegas. Os livros acadêmicos emburrecem o amor, a tecnologia o esfriou...
Parece que o amor está fora de moda. É cômico amar, é até vergonhoso para quem ama. Eu já tive minha chance no amor, e por muito quis ser o amor desse amor, mas nem tudo na vida é fácil. Às vezes sua …

Nem todo amor é suficiente

"Há mais coisas entre o céu e a terra do que possamos imaginar." Parece o preâmbulo de uma história de terror, mas não irei falar sobre as criaturas que habitaram minha mente durante a adolescência e início da vida adulta. Essa breve história trata-se de uma história de traição. É ilusório pensar, quiçá acreditar que alguém possa te amar, principalmente quando já te condenaram a ser um monstro que viverá na solidão. Eu fui uma dessas tolas que acreditou no amor.
Não vim aqui dizer que sou um anjo que foi condenada injustamente. Sim, sou eu a pessoa que mais mentiu pros pais, que confessou se afetar por alguém quando não passou de um momento pueril. Sim essa sou eu, a mesma que quando abandonada procurou consolo sexual nas mais vis criaturas. Essa sou eu, moldada a imperfeição humana. Não há nada que ninguém possa fazer por mim eu não escolhi ser assim, mas permiti. Eu disse sim quando o primeiro cara me pediu um beijo, eu deixei que o segundo me traísse e o terceiro me difa…

Uma doce narrativa ofertada a mim

Aprendi com a doce e paciente voz da minha mãe - ao ler ao pé do meu ouvido, enquanto eu me enfronhava no quase adormecer e na atenção dada ao som da narrativa - que os contos, as poesias, as estórias são importantes para a imaginação. Sim! E como eram! Hoje, acredito que seja por isso que eu não gostava de contos de princesas ou qualquer narrativa que começavam com: Era uma vez, mesmo sendo uma criança, sem maturidade para consolidar um juízo de valor ou de gosto, eu acreditava que a estória era óbvia, que já teria um início, meio e fim, mesmo com esse: e assim foram felizes para sempre. Eu não me contentava, não me satisfazia, queria ir além daquelas linhas, queria ir além da voz da minha mãe, mesmo que seu olhar me acalentasse dizendo: "a estória acaba aqui e eles foram felizes, isso é o que importa".
Cresci, refutei, sonhei, imaginei... E a expectativa sobre o óbvio? Sobre o destino de ser feliz? Isso continuava a me perturbar, eu me sentia como uma navalha que deveria se…

O que devo a ti?

Aquele foi o momento em que me deparei com os conchavos sexistas e fiquei totalmente estática... Não havia reação, só um vazio afetivo que me fez desejar não ter conhecido tal ser.
Bem, é assim que começa essa breve narrativa. Houve um tempo em que eu o admirei – o admirei profundamente –, mas era uma admiração apressada, tão peculiar a uma estudante universitária com imensa imaturidade intelectual – afinal, nós mulheres somos ensinadas a admirar os homens em sua perfeita e essencialgrandeza – que anos depois foi sendo amenizada por experiências acadêmicas dolorosas e singulares.
Pois bem, o que aconteceu para tal admiração se dissipar? Foi tão claro como o céu em uma típica manhã de verão. Eu o conheci fora da academia, eu conheci sua vida. Foi bastante repentina toda a descoberta, em 10 minutos eu descobri que toda superficialidade e dissimulação da qual eu suspeitava há meses eram tão reais como as palavras que aqui escrevo. Eu fui tomada por uma narrativa dolorosa de um relacionament…

À procura da decadência ou introdução aos escritos da juventude

Era mais um daqueles dias tediosos na UFPE. Eu e umas amigas tomávamos umas "catuabas" enquanto eu espera minha companheira terminar uma prova da seleção de mestrado. Conversa soltas ao vento e despreocupação como  a única lei.  Depois de algum tempo, minha companheira chegou e fomos jantar. Depois do jantar seguimos para diretório acadêmico, para jogar uma partida de dominó. Entre goles de catuaba, sentimos vontade de ouvir alguma música, daquelas que dá pra ouvir em grande grupo. Lá vamos nós, "puxamos" Flawless da Queen B, mas flawless não agradou muito aos demais ocupantes daquele espaço. Um burburinho sobre gosto musical se inicia, e os rapazes preferem sorrir e pedir aos deuses que aquela maldita música finde o quanto antes. Eu acho que foi apenas o conteúdo da música que incomodou, quem já ouviu flawless sabe do que estou falando. Rapazes que publicamente viveram relacionamentos abusivos com suas companheiras e com algumas amigas incluindo esta que vos fala. E…

Um corpo sem espírito é sinônimo de feiura

Sempre ocorrerão aquelas situações que nos fazem refletir sobre algo. Eu sou Aline, tenho 24 anos, meu mapa astral diz que sou pisciana com ascendência em Áries e lua em Capricórnio - nem sei o que isso quer dizer ao certo -, sou estudante de filosofia em uma universidade pública, moro com meus pais, tenho uma namorada há mais dois anos - que por sinal amo em demasia-, sou apaixonada por música, literatura, cultura africana, russa, italiana, essa última, sobretudo, é por causa da comida - adoro massas. Além disso, sou gorda, e isso que me fez refleti sobre as pessoas e os padrões estéticos.  Alguém me chamaria de louca se eu dissesse que cabelo liso é sem graça? Jogariam pedra em mim se dissesse que mulher com muito peito e bunda, coxas torneadas e barriga "negativa", não são atraentes para mim?  Afinal, me apaixonei por uma mulher "franzina"*, que supera em beleza qualquer "panicat". A propósito, o que é beleza? O que querem dizer quando dizem que pessoa …